ADOLESCÊNCIA E CIDADANIA
 
NESTE CAPÍTULO
   


ADOLESCÊNCIA E CIDADANIA
CASA DO CONCELHO
O G.R.T. E CPPT

 

 
 





 

À procura de melhores condições de vida, os então chegados a Lisboa, procuram a sua adaptação. É aqui que as coisas começam a ter um sentido bem diferente. Por um lado os mais velhos na sua maioria dividem as suas vidas entre a Estiva e os encontros nas tabernas ou nos jardins mais próximos de casa, com um passeio à feira da ladra. As suas mulheres acarretam o fardo da vida doméstica e o levar do almoço aos maridos às docas do porto. Era uma autêntica romaria.

A juventude Trinhaense procura de uma certa forma a sua identidade. Trinhão ou Lisboa? À primeira vista não se preocupa com isso. Interessa-se e sem perceber porquê, quer ficar ligada à sua terra. O chamado confronto de mentalidades deu-se de uma forma calma, entre a personalidade e carisma dos que chegaram à cidade, e a admiração dos lisboetas por essas comunidades. Acabou até por haver uma integração social.

Estávamos a iniciar um novo ciclo da vida portuguesa. A movimentação das populações do interior para o litoral, e a forma como essas comunidades surgiram demonstra que Lisboa estava a dar lugar a novos costumes sociais.

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Os movimentos regionalistas tiveram lugar. As comissões das terras da Pampilhosa quiseram dar continuidade aos movimentos bairristas através das populações que se mudaram para a capital, mas que trouxeram as suas terras nos seus corações e fizeram nascer a casa do Concelho de Pampilhosa da Serra.

Não é neste trabalho minha intenção fazer destaque ao que a Casa Concelhia poderia ter ou não feito, mas dar o meu reconhecimento pela sua importância como ligação dos pampilhosenses às suas terras natais. O mesmo fenómeno deu-se com todas as casas concelhias dos mais variados pontos do país. Nos anos sessenta e setenta a casa do concelho teve um papel relevante na ligação de Pampilhosa da Serra com Lisboa, mas penso que não soube e actualmente muito menos, saber fazer sentir dentro dos Pampilhosenses a sua terra natal. Basta para isso questionar qual a actividade desta casa do concelho nos tempos de hoje? Fico triste quando me perguntam se a casa do concelho ainda existe.

Como refiro não é minha intenção avaliar este organismo como instituição de utilidade pública, mas fazer meu testemunho do que foi em tempos esta Casa do Concelho. Começou e bem pelas suas primeiras festas que se realizavam todos os fins-de-semana. Era certo que todos se encontravam aos sábados à noite ou aos domingos na Rua das Escolas Gerais, 82. Era nesta certeza que sabíamos que nos encontrávamos com os nossos conterrâneos e amigos neste local.

A importância dos bailaricos ao Sábado à noite como Centro de Convívio era o pretexto real que nos fazia sentir ligados à nossa terra. Exemplo igual acontecia com a maioria das Casas Concelhias ou Regionais dos mais diversos cantos do nosso país, com destaque para a Casa da Comarca de Arganil onde se juntava a população da Beira Serra residente em Lisboa. A rapaziada mais viva acabava por "passar a ronda" por diversas casas concelhias.

A casa do concelho onde para além dos bailaricos se realizavam os Almoços chegou a ter um papel extremamente importante como elemento central do regionalismo pampilhosense. Basta recordarmo-nos da promoção de Reuniões das dezenas de Colectividades representativas de todas as povoações do concelho. De entre as actividades até aos anos 80 merecem destaque, na segunda metade da década de 70, os Torneios de Futebol de Onze em que o Trinhão teve papel de destaque ao ganhar as três primeiras edições.

Actualmente, pelo que sei, a actividade cultural desta casa do concelho centraliza-se apenas, como referência especial, na continuação da actividade do Rancho Folclórico e no Jornal "Serras da Pampilhosa". Recordo-me que muitas vezes os elementos desta organização não souberam junto dos mais novos cativá-los. Mesmo quando um ou outro estavam em desacordo sobre alguns pontos de vista, eram meramente convidados a abandonar ou eram forçados a pedir a sua demissão como sócios. Era e penso que ainda continua a ser esta a postura actual, na medida que ainda nada foi feito para o regresso destes jovens de então à sua casa natal.

Nunca mais me esqueço da frase do saudoso Arlindo de Almeida Esteves "nunca por nunca ser devemos deixar um conterrâneo sair desta casa zangado connosco", mas resta-me a esperança da Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra saber crescer até aos tempos de hoje, acompanhar a evolução tecnológica para apoio do trabalho das colectividades, e ser um espaço totalmente dedicado, e não parcial espaço habitacional, ao regionalismo pampilhosense, se é que ainda podemos afirmar palavras desta forma.

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Vimos anteriormente como nasceu o Grupo Recreativo de Trinhão. Desde então teve um percurso digno dos jovens do Trinhão, e que orgulhará os pais de verem os feitos dos seus filhos. Não sou a pessoa indicada para falar da história desta colectividade. No anexo D " Símbolo de uma época – Grupo Recreativo de Trinhão", escrito por Anselmo Garcia Lopes, ficamos com um ideia resumida sobre a sua história.

Não quero deixar de dar o meu testemunho sobre como vivi esta experiência. Um pouco dividido sobre a Comissão e o Grupo, sem por vezes perceber o porquê de duas colectividades, tentei acompanhá-las. No entanto, o GRT marcou uma época quanto á união dos Trinhaenses pela realização de excursões. Aquele sentido de família estava bem presente. Bastava por vezes saber que este ou aquele é da minha terra para as coisas terem um sentido diferente. Muitas vezes não percebemos porquê, apenas sabemos que nos sentimos movimentar em torno desses símbolos. O Grupo para mim transmitiu-me muito desse valor que ainda trago comigo.

A primeira comunicação social interna do Trinhão foram os Boletins Informativos. Com certeza que com eles, ao chegarem a casa de cada um, era como que se voássemos até à nossa terra e o cheiro dos pinheiros enchesse os nossos pulmões nos tão característicos "Pic-nic" no Monsanto em Lisboa

Em Abril de 1974, tudo se altera na conjuntura política e social deste país. Por um lado os efeitos da Revolução de Abril também se sentiram na nossa terra. Se por um lado o poder reivindicativo junto dos Trinhaenses se fez manifestar pelos apoios que as autarquias puderam dar, por outro lado o sentido de bairrismo e regionalista começou a dar sinais de choque. O sentido da linguagem política fez-se sentir, as pessoas não souberam perceber que o que os ligava ou ainda os liga à terra é acima de tudo necessidade e sentido de família onde os efeitos exteriores não deveriam corroer o carisma regionalista.

As coisas em Lisboa começam a alterar-se profundamente, as comunidades habitacionais mudam-se. Os grandes aglomerados de Quinta de Ferro e Telheiro de São Vicente de uma determinada forma surgem agora em Chelas, e uma grande parte das pessoas começam a adquirir casa própria nos mais diversos pontos da grande Lisboa. As conversas do final do dia e do fim-de-semana tendem a desaparecer, e o contacto com Trinhão na cidade perde-se cada vez mais.

Tudo ganha fulgor uma vez por ano. A festa anual e o desejo de ir à terra no verão ganha um sentido maior de união. E quase que se sente uma espécie de competição para tomar conta da Comissão. A vontade de ser do Trinhão por vezes é real e sem qualquer preconceito ou vaidade. É a Comissão que monopoliza esta actividade e os mais jovens têm dificuldades em se adaptar, mas não deixa de a alegria de ser do Trinhão estar bem visível nos rostos de cada um. Chegou a acontecer haver mais do que uma lista nas eleições para a Direcção, o que é muito bom. Pena que hoje tal não aconteça.

Não só não acontece, como também nos últimos anos até ao presente, surge no seio de alguns elementos uma espécie de procura de protagonismo pessoal, e fere-se a sensibilidade dos outros sem sequer uma palavra de apreço. É triste acontecerem estas coisas quando deveriam ser os responsáveis das colectividades a serem os primeiros moderadores e serem o exemplo da união de todos. Poderei estar enganado, mas muito à sua maneira encontrei esse exemplo no falecido Manuel Garcia Lopes da Quelha, a quem desta forma presto aqui a minha homenagem.

Ainda não encontrei em lado algum algo que preste homenagem aos fundadores destas coisas de colectividades em defesa dos interesses da aldeia. Gostava de encontrar algo bem legível onde qualquer visitante pudesse saber quais foram os homens que deram os primeiros passos. Sendo oriundo de dois desses homens, deixo aqui de igual forma o meu obrigado a todos eles, porque mesmo sem os conhecer tenho aprendido bastante com eles.

A importância do GRT no seio do Trinhão assim como da CPPT são de importância vital para o futuro desta localidade. Questiono-me ainda se a possível, SIM, digo possível, fusão do GRT na CCPT, trará bons resultados para todos. Porque as fusões não são as do papel que contam, são as das pessoas.

A minha experiência de adolescente enquanto navegava entre o Grupo e a Comissão há cerca de 25 anos á procura da minha identidade com a minha terra, é de algum modo a mesma dos jovens nos tempos que correm. Procurar o sentido da sua ligação à terra dos seus pais e avós, que é de certa forma um mundo que procuram entender melhor.

Diz-me a experiência que não devemos ficar alheios a estas reflexões quando nos pomos a analisar as coisas de uma forma genérica, pois sabemos que em casos pontuais isto não acontece.

A questão GRT ou CPPT irei abordá-la mais á frente em termos mais práticos e reais, mas esta prévia passagem pelo nosso passado nestas questões de identidade é fundamental para nos ligarmos à nossa terra.

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