BREVES MEMÓRIAS
 
NESTE CAPÍTULO
   


BREVES MEMÓRIAS
ALCUNHAS


top

 
 
GENTES DO TRINHÃO
 

Se fosse a contar todas as histórias que me vão na memória, muitas e muitas folhas seriam escritas, mas o tempo o dirá. Sem qualquer ordem ou interesse pessoal deixo aqui algumas dessas pequenas aventuras que fizeram parte da minha vida.

O harmónio é concerteza o instrumento musical mais característico de toda a nossa região. Foi e é, que o seu falar faz mexer pensamentos e fazer arrepios de lembranças. Milhares de histórias bonitas poderiam ser contadas, mas mais ainda se eu pudesse colocar neste livro as suas melodias. Tenho dificuldade em encontrar palavras para descrever tantas e tantas desgarradas dos mais velhos. Não consigo descrever o fado dançado por quase todo o povo do Trinhão quando se encontrava nos bailaricos ou nas festas anuais. O cantar das rondas com mais de cinquenta anos, pelo meio do pinhal passando pelo Vale Porco, Grota até às Fontes. Aquele baile no "Pegueirinho", quando a ronda era feita só por homens, e, no regresso as mulheres foram ter com eles com as cestas de comer e o baile começou. A partir deste ano a ronda começou a ser também para as mulheres.

Vozes bonitas entoaram ao som do armónio, as lágrimas correm-me de as recordar. Deixo um apreço especial ao "Estrofélico"(Manuel Lopes Brito). Talvez por não ter a mais bela das vozes, mas sim pela forma como sentia o seu companheiro tocar para ele.

Grande figura característica e única da aldeia era a do "Avelino". Era o nosso barbeiro, e os seus penteados a todos alegravam, e mesmo que assim não fosse, não havia muito por onde escolher. Enfermeiro ou curandeiro não importava, o que valia era que ele ajudava todos quanto podia na sua arte de tratar os ferimentos, injecções e afins. A sua estatura marcava a sua personalidade, e, até os seus dotes de fadista:

Ó Maria olha o Pai
As calças novas que ele tem
Que o alfaiate lhe fez
Da Saia velha da mãe

Fica aqui uma história que comprova os seus dotes de curandeiro:

Chovia "água que Deus a dava", estávamos todos à espera que o meu irmão regressasse de Lisboa. Entre família e amigos clientes, todos ficaram contentes, e a conversa continuou noite dentro.

Quis o meu irmão visitar a minha avó, a Palmira, levámos uma pinha acesa para o caminho e lá fomos. Estávamos a passar no largo da Cancela, a pinha apagou-se, e, no meio daquela confusão ele caiu para o quelho da casa do António Pereira. Aflito, comecei a gritar, a andar à toa e lá apareceu toda a gente. Quando acolheram o Anselmo, desgraça…

Tinha uma orelha praticamente a cair. O que valeu foi estar por ali o Ti Avelino e lá "cozeu" a orelha que ainda continua no sítio dela.

António do Brites. Quem não conhecia este homem que automaticamente era ligado aos bois que possuía em conjunto com os do Indioso. Recordo-me de ele me deixar andar em cima do arado para o rego ser mais fundo, como se eu pesasse muito...

O Ti Domingos sapateiro foi aquele que me fez as minhas primeiras botas. Mesmo aquelas de primeira qualidade, com tracção integral com rasto de pneu de carro, era um ver se te havias. Por muito bom calçado que ele fizesse, a rapaziada dava cabo delas num instante. Mas não é de botas que vos quero falar, é da personagem que também me marcou pelas suas conversas que tinha comigo, a paciência e a sabedoria que me transmitiu, que foi boa. Obrigado Ti Domingos.

Lembrar os mais velhos para mim, é sinal de vida. Uns mais do que outros ajudaram-me a crescer, como recordo o Ti António "Chanato" e o Ti Manuel da Quelha. Não sei explicar bem, mas, por este ou por aquele motivo, aqui vai um abraço.

As viagens entre Lisboa e Trinhão, isso sim, eram autênticas aventuras. Muitas vezes na camioneta de carga, mais conhecida como a "Ramona do Costa" ou na camioneta do "António da Vila", de preferência de noite para fugir ás autoridades, e com uma luz acesa dentro da capota, onde todos se sentavam conforme podiam. Muitos de vós pelos menos os mais velhos, terão histórias interessantes sobre estas viagens.

Mas aquelas que me lembro perfeitamente bem, foram feitas com o meu Pai no seu célebre automóvel preto. O alcatrão acabava a seguir a Pedrógão (no Alto da Louriceira), e o único caminho era pela ribeira de Mega. Devem imaginar, pó era coisa que não faltava, e como se isso não bastasse, na subida para as Cortes tínhamos que sair e ir a pé até ao cimo da serra, porque a boa da viatura patinava no meio de tanto pó.

Lá entrávamos novamente, continuando pela Chã de Alvares, Ponte dos Cegos, Indioso e finalmente parávamos no largo da Cancela. Mal chegávamos ao cimo do Trinhão, a buzina não parava e lá vinham todos para nos receber, e a primeira coisa que eu fazia era ir a correr para a casa da minha avó a "Pamira".

Antes destas aventuras de viagens, muitos viajavam de autocarro de Lisboa até Pedrógão Grande na empresa "Adelino Pereira Marques" e depois apanhavam o famoso "Gasolino" na barragem do Cabril para o pé do Trinhão e subiam o resto a pé até ao lugar.

Entre a Venda do meu Pai e o seu "Munho" muitas histórias poderiam ser contadas. A famosa farinha que corria das pedras do moleiro, movidas pelo famoso motor adquirido em Coimbra, tecnologia de ponta para a época. Casa mista de moinho e habitação, com o copo de lata, feita pelo latoeiro que periodicamente ia ao Trinhão, corria logo de manhã para a cabra alegremente me concedia o seu leite bem quente para a jejua.

Na casa da venda, quem não se lembra do famoso telefone como único meio de comunicação. Dava-se à manivela, alguém da Amoreira respondia e a telefonista fazia a chamada pretendida. As coisas eram mais difíceis quando o tempo era de Inverno.

Naquela casa era como se a vida da aldeia passasse toda por ali. Tínhamos na "aloje" os pipos de vinho, a salgadeira e era onde se encontrava a "secção do talho"; no primeiro andar a celebre cabine telefónica naquela "sala de convívio", com o balcão principal à entrada com o banco corrido para os homens descansarem depois de um dia de trabalho e beberem o copito, ao lado a mercearia e afins onde nada faltava. No andar de cima lá estava a habitação e o meu saudoso quarto onde aguardava que o "Piloto" me viesse acordar e levar-me à escola depois de tomarmos a "dejua" juntos.

Aqui vai uma para os mais novos, que até parece anedota, na medida em que conhecem actualmente o Trinhão. O meu pai tinha uma Opel de carga (caixa aberta), mas a única estrada que existia para ir para o pinhal no fundo do Trinhão era pela Cancela. E vejam lá que era necessário tirar a carroçaria do chassis no Contrinhal, passar o carro até ao Vale, os homens traziam a carroçaria à mão até lá e tornavam a montá-la de novo. No regresso era a mesma operação, com mais um pormenor. Era preciso descarregar e fazer rolar os barris da resina até ao outro lado e repor tudo na mesma.

Os mais velhos recordam-se do lagar antigo, que confesso nem sequer sei onde fica, mas, o actual já me colocou dentro de mim algumas recordações. Pretendo apenas registar o bacalhau assado na caldeira da água. Embrulhar o bacalhau numa folha de couve, "mandar" com batatas e cebolas para o borralho, tudo junto, ao som dum fadinho ao armónio, num alguidar a tiborna é uma autêntica delicia.

top

Como têm vindo a reparar, neste trabalho aparecem muitos "alcunhas". A quase de uma forma geral, criaram-se hábitos de colocar alcunhas uns aos outros. Ou derivados de alguma brincadeira, herança, atitudes, ou alguma referência particular. Desconheço alguma alcunha que tenha sido colocada por questões físicas ou psíquicas o que muito me congratulo por uma questão de ética natural e espontânea.

Era minha intenção fazer uma lista completa com base nos sócios da Comissão e do Grupo mas, como não me facultaram atempadamente as referidas listagens não é possível apresentar aqui o trabalho. Deixo aqui apenas algumas referências, mas deixo claro que a sua escolha foi arbitrária correndo o risco de colocar ou não alguém do meio mais pitoresco.

Manuel Quelha- Pámira
Domingos Brazuna L. Quelha – Estoura
Manuel Brazuna L, Quelha – Pop
António Lopes da Quelha – Tonito da Cova
José Augusto Domingues – Zé Rufino
Fernando Manuel E. Alves – Magoo
Fernando Antunes Francisco – Manaca
Fernando Antunes Francisco (da Eira) – Avó
Manuel Antunes Francisco – Camarro
Manuel Domingues Garcia Alves –
José António das Neves Garcia – Eixo
Carlos Alberto Alves Fernandes – Laranjas
Fernando Domingos Martins – Guitarrita
Henrique Martins do Canto – Trinta Diabos
Manuel Pires Garcia – Manequita
Fernando Viegas Bento – Presidente da Câmara
Domingos Garcia Francisco – Correio da Amora
Manuel Brito Mendes (Marmelo) – Argolas
Manuel Antunes – Tacas
 
top
 

SITE DA REDE DE SITES DA NET_PAMPILHOSENSE PARA QUALQUER ESCLARECIMENTO CONTACTAR O WEBMASTER