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ENCONTRO COM LISBOA
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Eis que se dá para mim algo que me assustou! Estava a olhar para uma televisão. Por incrível que pareça ainda tenho em memória as primeiras imagens: estava a "dar" desenhos animados onde as personagens principais eram dois corvos. A casa onde foi a minha primeira residência pertencia ao Ti Domingos do Eugénio "O Grande" e era no Pátio da D. Rosa, junto à Rua dos Remédios. Lá nos arrumámos da melhor forma possível, quatro pessoas no mesmo quarto, e com cerca de 10 pessoas na mesma casa.Recordo-me de ir para a escola primária no campo de Stª Clara. As primeiras imagens de Lisboa não passam das primeiras brincadeiras nesse pátio, na forma confusa de viver naquela casa, tipo "a monte", mas onde não deixava de haver as conversas familiares. Um belo dia lembro-me de andar pelos lados da Igreja de Stº António, junto à Sé de Lisboa, com a minha mãe à procura de uma casa, e quase sem dar por isso eis-me no meu novo lar. Os primeiros seis meses a tentar perceber esta nova forma de vida passaram rapidamente. O mesmo já não aconteceu a partir daqui. Estamos a viver no Largo de Stª Luzia, N.º 7, 2º Dtº, em frente do miradouro de Stª Luzia, junto ao Limoeiro de Lisboa. De uma forma muito genérica, foi desta forma que praticamente todos os emigrantes quer do Trinhão, quer da Pampilhosa da Serra, viveram histórias semelhantes a estas. O Telheiro de São Vicente e a Quinta de Ferro são dois exemplos de autênticas comunidades Trinhaenses. Com certeza que as palavras estão longe da realidade das dificuldades que por todos passaram. Foi acima de tudo com o apoio dos familiares já residentes em Lisboa que os recém chegados conseguiam chegar à primeira casa em busca de condições melhores de vida. Foi a partir dos anos 60 que se deu o maior fluxo migratório para Lisboa. Os mais novos chegaram a "fugir" do Trinhão e encontraram o seu primeiro trabalho em mercearias e carvoarias. Temos o caso típico do Firmino Antunes que residia na mercearia e taverna do Sr. Coelho junto ao Miradouro de Stª Luzia. Esta taverna teve um papel extremamente importante na vida do Trinhão, digamos que foi de uma certa forma a primeira sede social do Grupo Recreativo de Trinhão. Não resisto à tentação de nomear nomes além do Firmino como: Fernando de Santos, Manuel Sapateiro, Anselmo, Manuel do Barco, José Rufino, António da Cova e Joaquim do Raposo, rapazes que se encontravam neste local e onde veio a surgir a ideia da criação do Grupo, contribuindo grandemente para o desenvolvimento do Trinhão. Novos modos de vida deram lugar aos trinhaenses em Lisboa, as touradas na televisão aos domingos à tarde e um programa de folclore apresentado por Pedro Homem de Melo, foram dois marcos importantes em toda a sociedade em geral. Quase como por magia reparamos que à vinda das pessoas para Lisboa, estas sofreram alterações sociais significativas, e que tiveram que passar por diversas fases de adaptação, a coragem de deixar o Trinhão, a força da união familiar que despertou ou acentuou a relação de entreajuda, a busca do seu modo de sobrevivência ou subsistência e a sua adaptação de um modo de vida totalmente diferente daquele que estavam habituados. De um modo muito grosseiro damos conta do primeiro encontro com Lisboa. Que afinal o sonho de uma vida mais fácil e melhor tinha também os seus dissabores bem amargos, que quando tomados à consciência actualmente deixam a pensar um pouco. Neste contraste com a forma de vida actual e tendo como base a relação entre Trinhaenses de agora, facilmente encontramos que existem diferenças grandes, nomeadamente nas relações pessoais e das quais vamos encontrando algumas no desfolhar destas páginas. Como o ciclo se repete temos agora junto de nós os meus tios do Rufino, a minha tia Florinda e o Manuel Rufino, e foi nesta casa que os meus primos o João e o Pedro deram os seus primeiros passos com os olhos atentos da minha avó, a Palmira.
Poderei licenciar-me em diversos cursos, participar nas mais diversas formações académicas, mas onde aprendemos as primeiras letras do abecedário ficam para sempre registados dentro da nossa alma. Sim! Estou a falar-vos da escola do Trinhão. Lareira acesa no canto da sala, a Profª. Isménia sentada na sua secretária com os seus livros e papéis para orientação da aula, e a famosa régua que fazia escaldar as nossas tenras mãos, faziam a decoração. Naquele dia de Inverno, depois de pendurar o casaco no longo cabide à entrada da escola, sentei-me naquela secretária que continha a tinta para o aparo, perto da janela que deixava passar a água da chuva e o vento gelado. Ainda hoje esse quadro está pendurado no meu coração. As brincadeiras junto das grandes mimosas, a recolha da cola da cerejeira, o cuidado para não cairmos no poço da água, o meu cão "Piloto" que esperava pacientemente que me fosse embora para casa no final das aulas, são apenas algumas passagens que perduram nas minhas recordações de aluno da primeira classe. De um certo modo as coisas continuaram em Lisboa, mas a serenidade que o Trinhão oferecia não estava presente. Ou porque as origens dos alunos de Lisboa era diversificada, ou o ambiente ruidoso da cidade, ou qualquer outro fenómeno que ainda hoje não percebo, nunca mais o ambiente escolar foi o mesmo. Tento imaginar aqueles que fizeram a quarta classe e continuaram os estudos em Lisboa, decerto que as marcas são bem mais profundas. Só eles podem descrever e dar testemunho dessa experiência que poderá ser saboreada ao longo da vida de cada um. Mas isso foi vivido em 29 de Março de 2003 quando um grupo de antigos alunos homenageou a professora em Lisboa. Foi espantoso como as recordações vieram ao de cima. O que parecia ter passado ao esquecimento, estava afinal bem presente nas memórias de cada um. Mas como o ensino é um dos pilares da cultura dos povos, e que ganha continuidade na tradição de pais para filhos, entre muitas palavras sentidas naquele dia, o testemunho do Gonçalo, meu afilhado e sobrinho, deram prova disso: "Cara Professora Isménia, Quero começar por agradecer-lhe pessoalmente por quem eu sou. Apenas hoje a conheci, e no entanto desempenhou já um papel tão grande na minha vida que talvez estas curtas palavras não sejam suficientes para lhe agradecer. E passo a explicar. Durante uma vida, um ser humano realiza uma infinidade de escolhas e acções, umas boas, outras más, mas nenhuma delas sem significado. Há poucas dezenas de anos atrás, teve a oportunidade de ensinar as primeiras bases do conhecimento ao meu pai, um trabalho que, para alguns, poderá até parecer fácil, inocente, sem muito significado. No entanto, esses longos meses de trabalho "fácil" mudaram o meu pai para sempre, deram-lhe bases para ele se tornar na pessoa forte, inteligente, criativa e solidária que todos conhecemos hoje. As experiências por que passou ajudaram certamente a que visse a vida sobre novas perspectivas, e não falo apenas a nível da aprendizagem das diversas disciplinas, mas também da aprendizagem de vida que a sua presença permitiu a ele e aos seus colegas de então. O que veio depois teve igualmente muito mérito, mas sem as fundações essenciais que o seu ensino lhe proporcionou, seria certamente mais difícil conseguir optar pelas oportunidades que se seguiram. E se pensarmos depois em todas as pessoas que tiveram já a oportunidade de conviver e interagir com ele, que foram também mudadas e melhoradas pelas suas opiniões e discurso, que tomaram decisões em função das suas ideias, ou que cresceram com o seu modelo de vida em vista, como é o meu caso, penso que não é difícil perceber o quão importante o seu trabalho foi, e o quanto ele significa, não só para um homem, mas para além dele. Hoje em dia encontro-me no segundo ano da faculdade, em grande parte devido às possibilidades, oportunidades e meios que os meus pais me facultaram. Já passei também eu pelo ensino básico e secundário, fui-me formando enquanto adulto e, no entanto, depois de tudo isto, continua a ser a sua pessoa, pelas simples razões que aqui enumerei, uma das principais responsáveis por eu ter conseguido ser o que sou hoje. Uma pessoa é formada degrau a degrau, e nenhum desses degraus pode ser pisado sem que exista um outro abaixo para o suportar. E mesmo na escada da minha vida, que aparentemente pouco teria a ver com a sua, está lá um degrau com o seu nome, bem forte a garantir que posso avançar para os seguintes. Mais ainda, o que eu passar aos meus filhos e futuros descendentes continuará a ser ainda o seu legado, pedacinho a pedacinho, provavelmente durante centenas e centenas de anos, talvez mesmo até ao fim dos tempos. Ao pensarmos assim, somos evidentemente obrigados a reconhecer que o seu trabalho não foi "fácil", ou inocente e muito menos sem significado. Antes pelo contrário, orgulhe-se de ser responsável por moldar de forma positiva o futuro da minha família e geração até ao final dos tempos." Como todos sabem, os portugueses até cerca de Abril de ‘74 tinham uma tendência de prática religiosa católica. Os Trinhaenses não fugiam à regra. Como a maioria das crianças contemporâneas, eram de certa forma encaminhadas na igreja para o ensinamento da catequese. O fenómeno em Lisboa foi de algum modo bem diferente. Enquanto que nas aldeias toda a gente ia à missa, nem que fosse para os rapazes se encontrarem com as raparigas, nas cidades esse comportamento dava-se mais a nível individual. Toda a gente se encontrava aos domingos de manhã para irem à missa ao Machio. Ainda sinto o calor humano naquelas missas em que a igreja do Machio estava repleta de gente. Os cânticos que faziam demonstrar o esplendor das suas vozes lá de cima do coro. Acabada a Santa Missa, as gentes dos dois povos saudavam-se, e lá aparecia o harmónio a tocar. Rapazes e raparigas de regresso ao Trinhão pelo caminho já conhecido por todos lá iam dando asas à sua alegria bem patente nos seus rostos. Os rapazes cortavam um pau de sabugueiro, com as suas navalhitas bem afiadas, e, após terem preparado um pau de ervedeiro ou de oliveira, pegavam nas rolhas que já traziam nos bolsos e faziam as "estouras". Mas o dia de Domingo não ficava por aqui. Havia que almoçar rápido porque o baile na Cancela estava quase a começar. Alguém trazia os regadores para molhar o largo, não fosse o pó incomodar a graça da dança, nem "entupir" o armónio nem as concertinas dos irmãos Zé e António Domingos, mais conhecidos pelos Zé ou António Lagarto. Mais tarde os mesmos bailes da Cancela, que era o local sagrado do encontro aos Domingos à tarde, já com a Venda do meu pai aberta, tiveram a sonorização de um "Gira-discos" dele. Pouco ou nada me recordo das Missas no Trinhão, mas estas idas aos Machio levam-me a crer que decorreram durante a construção da capela nova. Actualmente todos dizem que não se devia ter deitado abaixo a capela velha, mas, quer queiram quer não, no passado já não se pode mexer. Para os crentes resta a consolação de ter como Padroeira a Nossa Senhora do Ó para velar pelo Trinhão, para de igual modo ter alguém que ainda preserve este lugar sagrado onde o homem seja capaz de se encontrar consigo e com Deus. |
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