PRIMEIRAS MEMÓRIAS
 
NESTE CAPÍTULO
   


ORIGENS
PORTELA DO FOJO
TRINHÃO

 

 

 

FAMÍLIA DE MANUEL DA QUELHA 

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Primeiras memórias. De menino a Lisboa.

ABRA A FOTO- Oh Menino, põe os teus pés em cima dos meus que eu te ensino a dançar!

Ainda hoje tenho estas palavras bem gravadas na minha memória. Tinha cerca de 5 anos quando a Ti Maria do Xouxas (Maria do Carmo) pegou em mim e com a sua arte de valsar fez de mim aquilo que é conhecido por todos nestas coisas de bailaricos. Não tenho qualquer dúvida que ainda hoje ela tem bem presente e dentro de si esta graça.

Este mexer do sangue quando o armónio começa a falar é algo que só os que por estas bandas nasceram (ou foram gerados) suportam dentro de si, desde o ventre da sua mãe até à eternidade da alma, e que o corpo na sepultura não consegue apagar. A maior parte das vezes não importa saber dançar, o que importa é tudo aquilo que a alma faz lembrar com o seu som macio, doce, que muitas vezes desliza pelo correr das lágrimas quando as recordações fazem bater o coração.

É neste ambiente que me encontro neste momento, mas deixo-me levar nesta força interior que me ajuda a aquecer do frio à fogueira sentado no tropeço, esperando que a queixada acabe de assar. O molho pinga em cima do lume, mas a minha avó dá-me um naco de broa e azeitonas para ir comendo. Alguém bate à porta e precura:

- Ho Palmira, amanhã vais à Lameira?

É nesta simplicidade de vida que as minhas memórias têm dificuldade em recuar mais para trás para encontrar fragmentos mais antigos.

No rodopio daquela mulher, com uma vivacidade deslumbrante e sempre com um sorriso nos lábios acompanhados de um sim para ajudar todos quanto podia, eu encontrava serenidade para dar os meus primeiros passos das brincadeiras de crianças.

Mas aquela casa parecia que era uma casa de brincar. Sem saber porquê, o bater do relógio da sala, as ferramentas que encontrei no sótão do meu avô que não conheci, fascinavam-me. O alambique da aguardente que obedecia a tudo o que a minha avó mandava fazer, a salgadeira onde ela guardava as minhas queixadas, a loja que tinha um frigorifico sempre bem afinado, e que não fazia barulho nem consumia energia, revestido com um chão de terra batida com paredes revestidas a fraga com os tectos falsos de vigas de madeira, faziam-me sentir bem.

No outro lado da casa até dava para correr pelo sobrado, onde tinha que ter cuidado para não bater com a cabeça na cantareira. Muitas vezes parava à porta da cozinha, sem perceber porquê, a olhar para aquela tralha toda. Umas trempes a segurar uma panela muito grande de ferro, que também era segura por uma corrente, uma mesa pendurada na parede de taipas que caía sobre o bordo.

Lá estava, num dos sítios mais preferidos que eu tinha, a varanda. Era um gozo saltar de lá para cima dos molhos de matos que ela trazia. Depois de tanto trabalho de cortar o mato com a reçadoura, trazê-lo à cabeça bem atado, lá estava eu a esborralhar o monte do mato.

- Ah diabrete!...

Gostava tanto daquele pátio que passava lá muito tempo. De tal forma que, como qualquer "diabrete", tinha que me aleijar. Ainda hoje tenho bem costurado no pulso do lado direito uma cicatriz com cerca de 10 cm, e do lado esquerdo cerca de meia dúzia de riscos feitos por um serrote de lâmina larga de cortar toros de madeira quando o bom do meu irmão e o meu primo Manuel do Barco quiseram fazer um carrinho de rodas.

Estava eu a segurar o pau de pinheiro, eles os dois a cortarem as rodas, salta o serrote, e pronto! A coitada da avó Palmira aflita, sem saber o que fazer pega numa garrafa da sua preciosa aguardente, desinfecta e corta às fatias um bocado de pano branco. Estão feitas as ligaduras, penso feito, e aqui estou eu.

Falta ainda falar-vos do palheiro, onde ela guardava a lenha e coisas que precisava, e a melhor palha lá estava por cima, tinha uma espécie de primeiro andar. Uma "ponte" ligava à sala onde estava o tal relógio que vos falei há pouco, havia um acesso por fora à parte de cima por um caminho que ligava as traseiras do pátio à Cancela que passava junto à casa dos Pereiras.

Onde estava o porco? Ora! Morava por debaixo da cozinha, as ovelhas em frente do palheiro por debaixo da sala do dito relógio. As galinhas? Simplesmente debaixo da varanda para o D. Galo cantar ao nascer do sol e acordar o povo que tranquilamente descansa.

Já agora querem saber onde dormiam? Pois aqui vai. No primeiro edifício, por cima da referida loja lá estavam os quartos. Não como os de agora, mobílias e casas de banho privadas. Para quê gastar terreno. Quando se dorme, apenas é preciso a cama com colchão de palha, com estrado de tábua seguras por cama de ferro, a pequena mesa-de-cabeceira suportando os dois objectos mais preciosos, a lanterna de azeite e o dito bacio que fazia sempre falta durante a noite.

Nos quartos restava apenas uma pequena cantareira ou armário para guardar algumas coisas. E de roupas era quanto bastava para descansar ao fim de um dia de labuta.

São estas algumas imagens que perduram desta casa que marcou a minha infância. Isto é para mim importante na medida em que procurei nela justificar a minha origem materna. Se tivesse conhecido o meu avô concerteza que as coisas tinham mudado de figura. Não teria dado tanta importância à casa, mesmo tendo as iniciais MG gravado em todas as ferramentas e alguns objectos, mas sim à própria realidade, ao meu avô Manuel Garcia.

Pelo outro lado as coisas não aconteceram desta maneira. A minha ligação não teve tanta afectividade, mas despertou um outro sentido real da vida quotidiana. Recordo-me de encontrar nesta casa não um ambiente de harmonia familiar típica, mas sim um clima onde predominava a passagem de todas as pessoas da aldeia.

Estou-vos a falar de uma "venda". Era num ambiente de taverna, mercearia e afins que os meus avós paternos viviam, e, por incrível que pareça, não houve tempo para nos conhecermos. Recordo-me bem daquela casa sem telhado. Um terraço característico que era o próprio telhado da casa, onde mais tarde na passagem da ronda o baile tinha lá lugar. No rés-do-chão a taverna e aquelas coisas do petróleo, no primeiro andar lá estava a mercearia e a venda da "chita" e "popelina", mesmo ao lado da castanha pilada de que eu tanto gostava. Era assim de uma forma geral que caracterizava a "venda do favas".

Sinto imenso a falta da ausência do conhecimento do meu avô António e com uma dor no coração pouco nos falámos. Quando dou por mim a pensar que as primeiras vias de comunicação da aldeia tiveram origem através deste homem, quando de uma parte do desenvolvimento desta zona foi um dos grandes percursores, mais pena fico por não ter havido tempo para nos conhecermos, e concerteza receber dele a grande sabedoria da escola da vida, descobrindo os segredos que o faziam movimentar-se na sua relação com a sociedade de então.

Não me posso esquecer de uma vez em que fui com ele ao pinhal. Chovia tanto que todos nós apanhámos uma molha, tinha ele uma carrinha Volkswagem branca de caixa aberta, e a preocupação dele em me abrigar da chuva ainda hoje a tenho presente. Do mesmo modo a atenção dele em mim, quando uma vez que esteve na nossa casa em Lisboa, estando presente nas explicações que o meu irmão me dava.

Mas quanto às questões das minhas origens, e agora já sendo um pouco maior, querendo que a vida me transmitisse já algum conhecimento, algo é presente no meu interior que ainda hoje busco essa essência.

Estou a perceber que essa coisa da genética não é só física, é acima de tudo sentimental aprofundando as coisas mais íntimas e profundas, que muitas vezes nos passam ao lado.

Sinto muitas vezes dificuldades em perceber de que lenho sou eu feito, mas nesta altura não estou muito preocupado em perceber a minha origem a partir dos meus pais, mas sim dos meus avós. Não percebo porque o faço, sinto apenas que quanto mais trabalho introspectivo desenvolvo mais me vejo a partir dos meus avós, e de uma forma bastante clara interpreto bastante bem o mau conhecimento dos meus pais e desta forma completo o círculo sobre a minha origem genética.

Claro que ela se manifesta em muitas variantes, mas a que para aqui importa é comum à população de Trinhão.

Vejo-me originário de uma comunidade que pouco se sabe sobre ela. Ou se muito se sabe, nada está escrito, e se nada está escrito, não tem força cultural para que se possa manter a tradição social e cultural do Trinhão.

É a essa transmissão de valores familiares e sociais que é necessário recorrer para que a continuidade da história dos povos seja entendida e contínua. Tal como eu, pessoa única descendente do Trinhão, desenvolvo a minha história a partir da minha origem, o mesmo acontece com todos aqueles que por aí se encontram, e é nesse testemunhar que as histórias desta Terra ganham sentido, indo desta forma ao encontro da descoberta da história da aldeia.

Através destas passagens pela minha memória, através das quais vou descrevendo o Trinhão, assim se vai entendendo melhor esta Terra. De igual forma se cada um o assim fizer, cada um de nós o vive e sente à sua maneira.

Encontramo-nos numa grande encruzilhada. Como nasceu o Trinhão? Quais as suas origens? Aqui as coisas começam-se a complicar. Pouco ou nada está escrito que nos possa valer de verdade como prova única e verdadeira sobre esta terra.

Cada um de nós, através dos nossos conhecimentos que se baseiam essencialmente em conversas, lendas e alguns manuscritos, vai criando algumas teses. Por outro lado tenta-se relacionar a origem das palavras com a história de Portugal. Também há quem relacione as histórias de outras aldeias vizinhas e o próprio concelho de Pampilhosa da Serra para tentar perceber como nasceu este lugar.

Numa pesquisa efectuada à Torre do Tombo (texto adaptado):

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Freguesia a 12 Quilómetros do concelho de Pampilhosa, Comarca d´Arganil, (foi da mesma comarca, mas do concelho suprimido d´Alvares). 40 quilómetros ao S.E. de Coimbra, 190 ao N. de Lisboa. Tem 210 Fogos.

Distrito da Guarda, distrito administrativo de Coimbra. Não vem no Portugal Sacro e Profano.

Situada em terreno montanhoso, pelo que a este concelho, e os suprimidos de Alvares a Fajão, se dá o nome de Concelhos da Serra.

É terra muito fria e pouco fértil, por causa das neves que duram aqui a maior parte do ano.

Produz medianamente muito vinho, azeite, milho e castanhas.

Fabricam-se aqui bastantes buréis.

TRINHÃO - Povoação da Freguesia de Portela do Fojo

Concelho de Pampilhosa da Serra, Comarca de Arganil

Tem Correio. PC 1

C. 1940 410 Habitantes

Alguém uma vez comigo tentou relacionar o nome Trinhão com "trilho". Vejamos, se nos concentrarmos num caminho existente entre Alvares e Álvaro, vilas de origem árabe, de grande importância para a época, reparamos que o lugar de Trinhão está sensivelmente a meio entre as duas povoações. Facilmente o entendemos como um lugar que serviu de pousada porque estava no trilho/caminho para as viagens que se realizavam.

Mas o sítio do Casal, junto à estrada que liga o Trinhão ao Vale do Porco também é apontado como localização da primeira família que terá estado na origem do Trinhão.

Aquando nas comemorações dos 50 anos da ronda a Rosa Brazuna e a Sandra Silvério (Rosita e Xana) escreveram:

"Trinhão ou "Encosta da Ovelha", como já foi outrora conhecida pelas populações vizinhas, é uma aldeia da região da Beira Baixa, localizada na parte Sul de Pampilhosa da Serra, pertencente ao Distrito de Coimbra, e tem actualmente cerca de 200 habitantes.

Há uns anos os habitantes de Trinhão foram alcunhados de "peixeiros", devido à prática da actividade, ou de "zaragateiros" pelo uso que davam aos paus de junco e de marmeleiro quando iam a bailes de outras povoações. Porém os trinhaenses não deixam de ser conhecidos também pela sua humildade e hospitalidade."

Por agora estão lançadas algumas pistas, se na verdade as podemos chamar de "pistas", mas é algo que podemos desenvolver até que ponto são verdades ou não tudo isto que se escreve. É neste sentido que proponho desta forma, a todos quanto estão a ler estas linhas, a disponibilidade de fazer chegar à Secção Cultural da Comissão Progressiva da Povoação de Trinhão tudo o que possa enriquecer a história desta Terra.

De forma alguma nos podemos esquecer da arqueologia que envolve o Trinhão, "Vale das Antas". Concerteza que algo estará por descobrir. O tipo de construções e arruamentos são vestígios reais desta origem. Daremos um breve passeio pelas ruas que para muitos são estranhas:

Temos assim presentes duas grandes fontes da origem do Trinhão: uma, como terá nascido este lugar; outra, a minha origem como, se me permitem chamar, trinhaense. A minha origem não é a mais importante, pois é meramente simbólica, porque para si que me está a ler, tente saber a sua origem, ou pelo menos recordar. Quando todos descobrirmos a nossa origem, mais perto estaremos de saber a origem do Trinhão.

Das informações sobre a freguesia de Portela do Fojo que recolhemos na Internet, destacamos o "Levantamento Arqueológico do Concelho de Pampilhosa da Serra", de Carlos Batata e Filomena Gaspar, que faz os seguintes registos sobre O Cabeço Murado que poderão dar uma pista sobre a origem do Trinhão:

" A estação do Cabeço Murado, a 720 metros de altitude, localizada "junto à estrada Pampilhosa da Serra - Amoreira, do lado direito, em frente ao Trinhão. O acesso faz-se por uma estrada de terra batida, à entrada da curva que está um pouco depois do cruzamento para a povoação."

Segundo aquele o trabalho dos dois estudiosos, trata-se de "um monte aplanado, situado estrategicamente a cerca de dois quilómetros do rio Zêzere e a um quilómetro do rio Unhais. A população local disse-nos que existiu um muro em volta do cabeço. Paula Dias (...) deu-se conta da existência de um fosso e encontrou aí alguns fragmentos de cerâmica fina torneada e um peso de rede, tudo numa pequena área de um metro quadrado. Quando visitámos o local, por diversas ocasiões, não conseguimos encontrar cerâmica e os muros encontravam-se bastante arrasados, notando-se ainda o talude mas não o fosso. Pode tratar-se de um povoado, embora sejam muito escassos os vestígios da sua ocupação: os materiais são incaracterísticos e incertos quanto à sua cronologia; o peso de rede é semelhante a muitos outros que foram achados em povoados da Idade de Bronze."

Desconhecemos outras referências, mas é o facto que já no final do século XVIII o Trinhão tinha importância na zona.

Segundo a pesquisa feita pelo actual Presidente da Junta de Freguesia de que faz parte (Sr. Armindo Mendes - Portela do Fojo), o TRINHÃO foi sede de Freguesia, até a construção da Capela Mor da nossa Senhora da Paz, do Vilar das Amoreiras, desde o dia 5 de Outubro de 1793 a 24 de Outubro de 1795. A transferência da sede de freguesia e da Senhora da Paz para a Portela do Fojo ainda hoje causa algum mau estar entre os Trinhaenses mais idosos.

A recente obra da Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra "Património Pampilhosense", coordenada pelo Dr. António Lourenço, refere ainda o seguinte:

" A freguesia de Portela do Fojo, embora oficialmente criada em 1792, só se assumiria como freguesia em 1 de Novembro de 1795, após a construção da sua igreja paroquial.

Integrava os lugares do Trinhão e Várzeas, que até aí pertenciam à freguesia da Madeirã e ao concelho de Álvaro; Vilar de Amoreira, Padrões, Folgares, Amoreira Cimeira e Fundeira, Indioso e Soutelinho que haviam pertencido até àquela data à freguesia de Alvares. "

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